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Patrimônio sacro de Goiana guarda histórias que resistem ao tempo

Cidade do Grande Recife fundada no século 16 tem oito igrejas tombadas pelo Iphan, três delas fechadas e uma em processo de restauração. No Sesc, Museu de Arte Sacra mantém acervo secular.

Por: Artur Ferraz


Foto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco | Padre José Edson Ferreira é o pároco de Goiana

Centro administrativo de uma das primeiras e mais prósperas capitanias hereditárias exploradas pelos portugueses no início do período colonial (1500-1822), a Região Metropolitana do Recife guarda até hoje tesouros históricos que ultrapassam os limites geográficos da Capital e da vizinha Olinda, Patrimônio da Humanidade desde 1982.

Um deles se encontra a cerca de 60 quilômetros das duas cidades-irmãs, no Centro de Goiana, município que até dois anos atrás fazia parte da Zona da Mata Norte, outro berço cultural do Estado, e que se desenvolveu em um pedaço de terra herdado da antiga capitania de Itamaracá.

Ali, mais do que praias como Catuama, Ponta de Pedras e Carne de Vaca, há um patrimônio sacro e artístico pouco reconhecido nos roteiros turísticos. Um cinturão de sete igrejas que remontam aos séculos 16, 17 e 18 e circundam a zona urbana em um raio de menos de um quilômetro. Dando uma esticada no passeio, a 29 quilômetros do Centro, fica a Capela de Santo Antônio do Engenho Novo, que pertenceu a André Vidal de Negreiros, líder da Insurreição Pernambucana contra a ocupação holandesa.

Tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1938, os oito templos católicos revelam um passado que resiste no tempo e que, apesar dos desgastes sofridos ao longo dos anos, religiosos e pesquisadores lutam para preservar.

Além dessas, na Povoação de São Lourenço, a apenas 7 quilômetros da Capela de Santo Antônio, é possível visitar a Igreja de São Lourenço de Tejucupapo, erguida em 1555 e tombada pelo Governo do Estado. “Nós estamos em uma cidade de 450 anos com muitos templos antes mantidos por irmandades e confrarias, que eram associações de leigos (fiéis) e hoje não existem mais. Logo, a guarda desses templos passou para a paróquia”, conta o professor de pedagogia e membro do Instituto Histórico, Arqueológico e Geográfico de Goiana (IHAGGO), Marcos Paulo Aurélio dos Santos. “Em todos os movimentos revolucionários de que tomou parte, Goiana sempre se sobressaiu porque essas igrejas estão todas voltadas para o centro da cidade e formam uma espécie de muralha".

Matriz


Matriz de Goiana | Foto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

O centro citado pelo pesquisador é, mais especificamente, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Brancos, para onde apontam as fachadas dos outros templos. Construída em estilo barroco no início do século 17, a Matriz de Goiana está fechada há 10 anos por problemas estruturais.

Interrompida sete meses depois da interdição, a restauração do espaço, inicialmente financiada com empréstimo do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES), foi retomada no ano passado com recursos próprios da paróquia e da Diocese de Nazaré. “O orçamento era de R$ 3,4 milhões, mas gastamos R$ 80 mil por mês para manter a obra funcionando. Todo mês precisamos fazer campanhas para arrecadar esse dinheiro”, detalha o pároco de Goiana, padre José Edson Ferreira.

A Folha de Pernambuco teve acesso, com exclusividade, às obras de restauro do centro religioso, que já abrigou as irmandades do Santíssimo Sacramento e das Santas Almas e foi visitada pelo imperador dom Pedro 2º em 1859. A expectativa é que a intervenção seja concluída nos próximos seis meses. A nave, com 11 metros de largura e capacidade para 450 lugares, é, por enquanto, um grande galpão onde 12 profissionais, entre arquitetos, restauradores e pedreiros, trabalham para recuperar o altar, além de imagens, bancos e colunas. “É uma obra difícil”, comenta o pároco.

Na falta da Matriz, desde 2008, as missas da paróquia são celebradas na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, localizada na mesma rua. O templo inaugurado em 1596, também em estilo barroco, é outro prédio histórico que sobrevive aos desgastes do tempo. Segundo o padre Edson Ferreira, é a próxima igreja a ser restaurada quando a Matriz for entregue. As falhas de manutenção podem ser percebidas em todo o espaço, mas o altar, feito de madeira, é a parte mais comprometida. “Não tem segurança, mas, como não tem outro lugar para celebrar, estamos lá”, justifica o religioso.

Além da Matriz, outras três igrejas estão fechadas para o público: Nossa Senhora do Amparo, Nossa Senhora dos Milagres da Santa Casa de Misericórdia e Nossa Senhora da Conceição. Esta última só abre em dezembro para as festividades em homenagem à padroeira afetiva de Pernambuco. Já a da Misericórdia fica em frente a uma feira livre. De acordo com a paróquia, o dinheiro para a restauração da igreja está sendo negociado com o BNDES, mas, para que os recursos sejam liberados, é preciso retirar o comércio, o que deve ser feito pela prefeitura.

O impasse divide os moradores. “Tem que arrumar um canto para colocar a gente porque eu sou a chefe da minha casa”, diz a comerciante Cleonice Maria Xavier, 59 anos, dona de uma barraca de frutas. “Apesar de eu não ter tempo para ir a uma missa, bom seria que ela (a igreja) funcionasse como a dos Homens Pretos, que, nos sábados, tem missa e fica bem bonita, enfeitada”.

Para o gestor ambiental Vidal de Sousa, 32, o patrimônio deveria ser mais valorizado. “A relação que a gente pode ter com a identidade cultural não está sendo acessada. Se os próprios moradores não conseguem transmitir isso, imagina para quem visita a cidade”, comenta.

Por meio de nota, o Iphan informou que tem conhecimento e faz o acompanhamento da situação por meio de ações rotineiras de fiscalização para identificar o estado de conservação e manutenção dos imóveis e abrir processos com vistas à notificação e reparação dos danos por parte do responsável. Em relação às oito igrejas tombadas de Goiana, o órgão afirma que tem orientado e feito recomendações sobre a necessidade de intervenções.

O texto ressalta ainda que o tombamento é um reconhecimento do Estado de que aquele bem tem relevância nacional, mas a responsabilidade pela conservação continua sendo dos proprietários. Além disso, segundo a nota, pelas vistorias realizadas em 2019, nenhuma das igrejas apresenta risco estrutural de desabamento.

A Folha também procurou a prefeitura de Goiana para esclarecer sobre o estado de conservação do patrimônio e o acordo envolvendo a retirada da feira livre em frente à Igreja da Misericórdia. O contato foi feito na última quarta-feira (8) pela Secretaria de Comunicação, que disse que repassaria a demanda à Secretaria de Obras, mas, até o fechamento desta reportagem, a pasta não se posicionou.

Sobre a Igreja da Santa Casa de Misericórdia, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDS) disse em nota que é uma exigência do Iphan, parceiro no projeto, a retirada da feira para que a obra seja executada e o financiamento seja liberado. Em relação a Igreja Matriz Nossa Senhora do Rosário, o BNDES informou que durante a execução da obra, quando foi possível uma avaliação mais precisa, foi verificado que a estrutura da Igreja, sua pintura e suas peças estavam mais deterioradas do que constatado inicialmente. "Isto causou um aumento do custo do projeto. Toda a verba prevista no primeiro contrato foi liberada pelo BNDES, permitindo a execução inicial de parte da obra. Para obter mais recursos, seria necessário a apresentação de novo projeto, o que não ocorreu", finaliza a nota.

Museu de Arte reúne imagens produzidas entre os séculos 18 e 20 - Crédito: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

Acervo secular

Fora dos espaços religiosos, os resquícios que sobraram desse pedaço da história pernambucana estão sendo reconstituídos, aos poucos, no Museu de Arte Sacra Maximiano Campos, mantido pelo Serviço Social do Comércio (Sesc). O espaço, que hoje abre para visitas pré-agendadas, exibe objetos, imagens e mobílias produzidas do século 18 à primeira metade do 20. O acervo veio da Igreja do Rosário dos Homens Pretos, onde ficou armazenado até 2013, quando foi cedido pela Diocese e pelo Iphan à instituição para fazer a conservação e exposição das peças pelo prazo de 30 anos.

Boa parte desse material são fragmentos de origem desconhecida que podem pertencer a peças danificadas. Atualmente, estão catalogados cerca de 800 objetos. Em torno de 250 foram recuperados até agora. “Como no primeiro momento o Iphan não tinha como saber de que peça era aquele fragmento, catalogaram o fragmento como uma peça específica. Depois que se vai descobrindo”, explica o instrutor de Atividades Artísticas do Sesc e um dos responsáveis pelo museu, Izaias Neto.

O trabalho de recuperação, tocado por uma equipe de quatro restauradores mais os alunos de um curso realizado com o Senac que colaboram como auxiliares, é lento e minucioso. “Temos peças muito delicadas de madeira, sujeitas a cupim, faltando pintura, e que estavam guardadas num lugar não muito adequado. Os restauradores fazem a escavação até a camada original para saber qual foi a coloração inicial”, esclarece Neto. Entre os objetos expostos, estão relíquias como um missal do século 19 e uma imagem de Nossa Senhora do Amparo, dada de presente pela princesa Isabel ao município. “Não é comum encontrar uma variedade tão grande de obras de arte e que foram arrecadadas aqui mesmo”, ressalta o pesquisador Marcos Paulo Aurélio dos Santos. 


Fonte: folhape

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