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Aprendendo com os (erros dos) ‘mais velhos’: uma reflexão sobre os dois últimos domingos da Quaresma


Nos dois últimos domingos da Quaresma 2019, fomos convidados a refletir sobre a parábola do filho que se reconcilia com o pai (4º domingo) e sobre o perdão concedido à mulher adúltera (5º domingo). Duas situações que versam sobre pecado e misericórdia, uma alegórica e a outra vivencial; ambas, porém, com um único objetivo: nos ensinar a viver como cristãos, fazendo-nos lembrar que o sangue de Cristo, derramado no calvário, nos torna aptos à prática da Misericórdia e da Reconciliação – na família, na fé, entre diferentes, na vida em geral.

Provavelmente, muitas das reflexões foram realizadas, acertadamente, com foco na motivação e na busca por uma vida reconciliada e misericordiosa. Convido vocês, agora, a perscrutar outras dimensões dessas ricas narrativas, na ótica dos ‘mais velhos’, a fim de percebermos que, em certos casos, a idade ou o tempo de serviço são um ponto fraco de uma existência de não-fé, de não-imitação de Cristo.


Na parábola de “um Pai que tinha dois filhos” (Lc 15,11) vislumbramos uma breve e primorosa história do processo de restauração que fora construído em cinco etapas: o pecado (partir); o castigo (miséria); um arrependimento (contrição); a conversão (o retorno); uma justificação (a aceitação). Por que isso tudo não toca aquele filho de mais idade? Pode-se perguntar ainda: é possível uma pessoa ter um pai incrível, uma casa maravilhosa, um campo cheio de novilhos, empregados, acesso à boa música, amigos e, mesmo assim, estar insatisfeito, vivendo como um pobre infeliz?

Veja como a atitude do irmão ‘mais velho’, na parábola, revela sentimentos autodestrutivos (vide Lc 15,25-28): “E o seu filho mais velho estava no campo e quando voltava, já perto de casa, ouviu músicas e as danças (25). E, chamando um servo, perguntou-lhe o que estava acontecendo (26). E ele lhe disse: é teu irmão que voltou e teu pai matou um novilho cevado porque o recuperou com saúde (27). Então ele ficou com muita raiva e não queria entrar (28)".

Mas entrou... em crise! Ele não aceitava aquela festa e já não considerava o outro como seu irmão. “[...] vindo, porém, este teu filho, que desperdiçou os teus bens com as prostitutas, mataste para ele o bezerro cevado” (Lc 15,30). Esse ‘mais velho’ era um rico-pobre, pois cobra do pai aquilo que já era seu, por direito: “[...] filho, tu estás sempre comigo, e tudo que é meu é teu...” (Lc 15,31). Ele nunca conseguiu servir e obedecer ao pai por amor e prazer: “Há tantos anos que te sirvo e jamais transgredi um só dos teus mandamentos, e nunca me deste um cabrito para festejar com os meus amigos…” (Lc 15,29). Ele é um sofredor que não consegue perceber a felicidade que é estar junto de uma bom pai e de um irmão restaurado. Ao não querer se envolver na festa da família reconciliada, ele acabou se revelando um poço de rancor e inveja!

A Invídia (rancor e ódio provocado pela felicidade alheia) é um dos sentimentos mais destrutivos e que deforma as pessoas. “É um sentimento de inferioridade e de desgosto diante da felicidade do outro. É um sentimento de cobiça da riqueza, do brilho e da prosperidade alheia”. “Um coração pacífico é vida para o corpo, mas a inveja é cárie para os ossos” (Pr 14,30). Ela afasta a possibilidade de amar e por isso está no rol dos pecados mortais, pois “o amor não é invejoso” (1Co 13,4), e quem possui Amor é capaz de chorar com os que choram, é capaz de se alegrar com os que se alegram (Rm 12,15).

Mas o que aprender com esse ‘mais velho’? Para isso, busquemos responder a seguinte questão: POR QUE, E QUANDO, A FESTA DO OUTRO NOS INCOMODA? A Bíblia registra muitos casos de conflitos, perseguição e morte por causa da inveja, vejamos: por inveja Caim matou seu irmão Abel (Gn 4,4-8); causou grandes problemas na família de Jacó (Gn 37,11); motivou a perseguição de Saul contra Davi (1Sm 18,8); a morte de Core e mais centenas de outros homens (Nm 16,1-35); a inveja fez Sanabalat se opor ao trabalho de Neemias (Ne 2.10); fez Amã se enforcar (Et 5; 7,10); levou Daniel para a cova dos leões (Dn 6.1-28); os sacerdotes, movidos pela inveja, entregaram Jesus para ser crucificado (Mc 15.10)...

A inveja continua sendo a causa dos conflitos nos relacionamentos, das divisões nas igrejas, das perseguições dentro das empresas, das guerras entres os povos e de muitas mortes no mundo.

O TESTE! Agora é conosco! Façamos “mea culpa” para melhor ‘brilhar’ com Cristo na sua Ressurreição. Na primeira pessoa mesmo, eu sou invejoso quando: não suporto ouvir o outro falando sobre os seus sonhos, projetos e ideais; quando, diante do sucesso do outro, me sinto injustiçado por Deus; quando me sinto incomodado com a presença daquele que está celebrando uma grande conquista, pois a manifestação de alegria dele me causa perturbação; quando busco difamar, tirar a boa fama do outro que está melhor, que fez melhor, que conquistou mais do que eu. Sou invejoso quando as conquistas do outro provocam em mim grande tristeza, a ponto de perder o sono; quando me alegro ao saber do fracasso do outro; quando sou capaz de levantar uma calúnia para impedir o crescimento do outro e, finalmente, há quem diga que sou invejoso quando “fofoco”, pois as conversas aparentemente banais, tem uma raiz na inveja.


Por outro lado, os ‘mais velhos’ erraram feio na vivência da quase lapidação (suplício que consistia no apedrejamento do criminoso) da mulher adúltera (Jo 8,2-8). Foi uma armadilha chula que construíram, pois, na urgência de comprometer Jesus, esqueceram de levar o homem pego em flagrante para ser castigado também. A falta do homem já indica que as instruções de Moisés não estavam sendo seguidas à risca. Aliás, em vários momentos, muito antes de Jesus, por conveniências as mais diversas, as leis mosaicas eram desobedecidas até por reis de Israel.

Jesus, por sua vez, apresenta-se sentado e se inclinando até o chão para escrever com o dedo, diante dos anciãos de Israel. Essa postura se choca frontalmente com a lei dada à nação de Israel. Um dos mandamentos dessa lei prescrevia (Lv 19,32): “Levantar-te-ás diante de uma cabeça encanecida (branca), honrarás a pessoa do ancião...”. Mas, para além da conjectura de um possível desvalor dado aos mais velhos (mesmo porque Jesus já estava sentado ensinando), há a probabilidade de, ao se abaixar para escrever na terra, Cristo teria cumprido a passagem de Jeremias 17,13, que diz: “...os que se afastam de Ti serão escritos na terra, porque abandonaram a fonte de água viva...”. E a fonte estava ali, ao alcance deles, mas os ‘mais velhos’ preferiram sair de fininho ao ouvir a resposta de Jesus, e, acusados pela própria consciência, foram-se retirando um por um... Ficando só Jesus, a mulher e povo que o rodeava para ouvir seus ensinamentos.

Povo nada uniforme, formado na escola dos fariseus, homens da lei; povo este composto também de nós todos, muitas vezes mestres no ofício de acusar os irmãos! E, neste caso, não é algo que tenha a ver com idade ou longevidade, mas com caráter, com jeito de ser.

Que esta Quaresma nos ajude a nos tornarmos discípulos, imitadores de Jesus Cristo, em todos os aspectos, particularmente na vida doada, no coração puro, na prática da justiça, no acolhimento e no exercício da misericórdia. Vivenciemos santamente a Semana Santa!


Padre José Ramos

(Paróquia Santo Antônio, Tracunhaém-PE)


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